sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Entrevista: Thomas Haustein


   E aqui vem mais uma estreia do Urubu, é a sessão de entrevistas. No fim do ano passado um amigo meu apareceu com uma revista que me impressionou bastante, uma revista diferente das outras, mas muito diferente, é uma pena que eu não recorde o nome da tal revista. E logo no começo da revista havia uma entrevista, com ator Thomas Haustein, de inicio me espantei. Mas se você não sabe quem é Thomas Haustein, eu lhe apresento. No famoso filme ''Eu Christiane F., 13 anos, drogada e prostituida'',  Thomas interpreta ninguém mais que Detlef, o namorado viciado e garoto de programa de Christiane. Aqui temos uma foto ''atual'' e outra do filme Christiane F., e logo mais a entrevista.



Vice: Vamos começar por 1981. Como você conseguiu o papel de Detlev em Christiane F.?
Thomas Haustein: Eu estava na discoteca Sound e a irmã do produtor Bernd Eichinger estava dando uma volta por lá, procurando rostos interessantes para o filme. Ela me deu seu número de telefone e disse que eu deveria ligar. Eu não tinha certeza se deveria ligar, do que se tratava exatamente ou se era mesmo verdade, mas acabei ligando.



Natja Brunckhorst foi escolhida entre duas mil garotas alemãs para interpretar Christiane. Com você foi parecido?

Acho que sim. As paredes dos escritórios estavam cheias de fotos de rapazes diferentes para o papel. Cada vez que eu voltava tinham menos fotos. Então, foi uma coisa tipo as que você vê na televisão hoje em dia—rodada por rodada, como uma competição. Continuei voltando, fazendo coisas na frente deles, falando para a câmera. Até que na parede ficaram só a minha foto e a de outro rapaz. Foi quando eu soube que tinha ficado com o papel.


Quantos anos você tinha?

Tinha 14 anos. Meu aniversário é em junho, então fiz 15 enquanto o filme estava sendo rodado. Foi muito legal.


O filme foi baseado na autobiografia Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída. Você leu o livro antes das audições?

Ah sim, claro. Todo mundo da minha idade leu.


Você teve experiências com heroína na época?

Passei muito tempo em festas em Berlim, em contato com muitas drogas. Experimentei várias coisas, mas para a heroína eu sempre disse não. Vi o quanto ela afetava as vidas de jovens ao meu redor, que começaram a usá-la porque era legal e acabaram ficando viciados.


Você andou com viciados para se preparar para o papel?

Mais ou menos. Antes do filme eu era um estudante normal de Berlim passando pela puberdade. Depois, minha vida mudou muito. De repente eu estava em uma atmosfera completamente diferente. Para um rapaz de 14 anos, era tudo muito estranho, mas divertido. Dei um grande salto no meu próprio desenvolvimento. Absorvi muitas coisas da cultura, subcultura, do pessoal do cinema, da música punk, dos drogados e de várias outras cenas.


Amo a sua expressão quando você sai do banheiro da Sound e tromba com a Christiane como um zumbi. Você imita um viciado muito bem.

Isso é porque eles estavam sempre ao meu redor!


Você chegou a conhecer a Christiane F. verdadeira?

Ela foi ao set uma vez, com uns amigos. Era uma mulher com um visual meio punk e muito simpática. Gostei dela, mas logo que fomos apresentados me chamaram para gravar uma cena, então falei com ela muito pouco.


E o Detlev R.?

Não, nunca nem vi. Só soube alguma coisa sobre ele anos mais tarde. Ele estava trabalhando com assistência social, dirigindo um ônibus para deficientes. Estava bem, e vivendo com sua esposa e família em Berlim. Uma pessoa da qual eu fiquei muito próxima foi a Stella, amiga de verdade da Christiane Felscherinow no livro. A gente namorou por um tempo enquanto o filme estava sendo feito.


Uau. Você namorou a Stella verdadeira?

Sim. Ela também aparece no filme, numa cena curta. Ela faz o papel da traficante que me vende heroína na Sound, logo no começo. Ela está vestindo um casaco longo. Eu gostava muito dela. Ela me ajudou a atuar de forma mais realista naquela cena.


Você também conheceu o David Bowie?

Um dia ele apareceu na Sound, mas os meus amigos me enganaram, me disseram que era um sósia do David Bowie! Então quando me apresentaram o “sósia” do Bowie, fui meio frio. Depois que ele foi embora, os meus amigos contaram a verdade. Eu fiquei tipo: “Perdi a minha chance!”. O que ninguém sabe é que as cenas do show foram feitas em um show do AC/DC, não do Bowie. As cenas com o Bowie foram filmadas depois, nos Estados Unidos, só com Natja e uma pequena equipe.


Quando vocês filmaram na Bahnhof Zoo, ainda tinham adolescentes viciados e prostitutas por lá?

Sim, claro! Aquilo não era falso. No filme tem um monte de gente no fundo da cena que realmente estava lá, usando drogas e tudo o mais. Dá para ver que em algumas partes eles estão amontoados porque o Uli os queria em uma determinada cena, como a que a Natja está andando por um corredor me procurando. Fora isso eles ficavam por ali enquanto a filmávamos.


Você disse que você já frequentava a Sound antes mesmo do filme. É interessante como as locações de Christiane F. são realistas. O conjunto habitacional Gropiusstadt, a Sound, a Bahnhof Zoo, os banheiros públicos em Bülow Strasse. Eram locações de verdade.

Sim. Muitas foram destruídas. Outras ainda estão lá.


Como é a Bahnhof Zoo hoje?

Tem várias lojas de luxo, seguranças e policiais lá dentro. Tentaram melhorar o lugar e se livrar do mau cheiro. Mas, por causa do meu trabalho como assistente social, sei que os fundos da Bahnhof Zoo foram frequentados por jovens michês por um bom tempo. Ainda tem prostituição e moradores de rua por lá. É um ponto de encontro porque os centros de assistência social ficam ali na região. Também é muito anônimo porque é grande. Se a polícia está atrás de você, você pode ficar lá que ninguém vai te pegar. Você pode sumir rapidinho.

Eu adoro as roupas que você usa no filme. Fiquei impressionado com o quanto fizeram você ficar parecido com o verdadeiro Detlev R., baseado nas fotos do livro: seus jeans apertados, as botas de salto alto, a camiseta de tigre que diz “wild thing” e aquele cachecol preto imundo. É, eu também gostava daquelas roupas. Algumas eram minhas mesmas.

Aquela jaqueta escrita “California Gold” era sua?Era! [risos]

As cenas com as injeções eram reais?Não. A agulha entrava no cilindro quando eu a apertava contra a veia, e tinha sangue falso. Como aquelas facas de loja de mágica.

E a cena de abstinência no seu apartamento, com aquele vômito sem fim? Adoro aquela cena.Ah, é. Aquilo também foi um truque, claro. Tinha material pressurizado na mão da Natja, ligado a um tubo plástico colado em seu braço, que era operado por alguém da equipe. Ela ficava com a mão perto da boca e o troço jorrava. Sem parar.

A sua última cena no filme, onde você transa com um cliente, é bastante explícita para um garoto de 14 anos, em 1981. Você ficou nervoso?Eu não tinha contato com o mundo gay e claro que fiquei nervoso de fazer aquilo na frente das câmeras. Foi a mesma coisa na minha primeira cena de sexo com Natja. Eu nunca tinha tido nenhuma experiência sexual! Então, antes da cena com o meu cliente, Uli ficou sozinho comigo, sem a equipe, só eu e ele, e ele ficou atrás de mim para mostrar como teria que ser. [risos]

Legal. Você se lembra de alguma cena que foi filmada mas não entrou na versão final do filme?Sim. Teve uma cena em uma casa velha, em ruínas, perto do muro de Berlim. Tinha um homem enorme lá—o dono da casa ou coisa parecida—com uma cara estranha e um barrigão, e ele era muito violento. Eu estava lá com Natja, íamos pegar a nossa droga e brigávamos muito, e ele nos surpreendia com um porrete na mão e tentava acertar a Natja, e nós corríamos para fora da casa. Foi legal porque fizemos várias cenas de ação dentro dessa casa. Também teve muitas cenas com a mãe da Christine, algo a ver com o apartamento delas. Tiveram outras também, mas não lembro agora.

Você voltou a ver a Natja Brunkhorst depois do filme?Não, não vi. Às vezes via alguma coisa sobre ela na TV. Mas perdi o contato com ela depois das filmagens. Não sei por quê. Eu gostava muito dela.

O filme tem vários fãs. O elenco devia se encontrar de novo.Com certeza. Seria legal ver todo mundo de novo, nem que fosse só por uma tarde.

Você fica surpreso com o fato de o filme ainda ser tão popular depois de 30 anos?Sim, especialmente nesses últimos anos. É uma espécie de revival. Eu estive na Bahnhof Zoo hoje para tirar as fotos para essa entrevista e tinha uma turma de estudantes lá que certamente tinha visto o filme ou lido o livro. Eles ficaram rondando pelos fundos da estação, olhando. Fico realmente surpreso que o filme tenha preservado a sua popularidade com os jovens porque hoje, com os efeitos especiais em filmes como Réquiem para um Sonho, você percebe que existem muitas outras formas de contar uma história como essa.

Você voltaria a atuar? Você fica feliz por Christiane F. ter sido o seu único filme?Eu não tentei trabalhar como ator de novo. Muitas vezes me pergunto por que não tomei esse rumo. Talvez porque eu seja muito autocrítico. Não ter voltado a trabalhar como ator foi triste. Gostei muito de trabalhar em Christiane F. São lembranças intensas, maravilhosas.

O que você faz hoje?Trabalho social. Apoio terapêutico psicanalítico para viciados. Quando eu era jovem comecei a trabalhar com a substituição de agulhas, e ao longo dos anos fiz outras coisas nesse campo, sempre em contato com os mesmos usuários. Agora trabalho com terapia ambulante. Como conselheiro, mantenho contato com alguns dos adolescentes com quem trabalhei desde que eu tinha 14 anos.

Nossa! Você conta para eles que você era o Detlev de Christiane F.?Não. Pelo menos não no começo. Se conquisto a confiança deles, talvez. Eles sempre ficam surpresos e fazem um monte de perguntas. Mas isso não sou eu. Eu preciso manter um contato real com eles primeiro, essa é a prioridade.

Você mostrou o filme para o seu filho?Ele tem 14 anos hoje. Eu mostrei uma vez, mas ele não se interessou. Algumas coisas eram fortes demais para ele. Ele passa muito tempo na internet, como a maioria dos garotos da idade dele, então ele sabe, e tem orgulho de contar para os amigos.


ENTREVISTA POR MARK ALLEN